Em laboratórios de pesquisa, controle de qualidade e análises químicas, a precisão e a confiabilidade dos resultados são fundamentais. É nesse contexto que entra o Certified Reference Material (CRM) — ou Material de Referência Certificado —, um recurso essencial para garantir a rastreabilidade, a exatidão e a comparabilidade dos dados obtidos em ensaios e medições.
Mas, afinal, o que exatamente é um CRM? Como ele é produzido, validado e utilizado na prática?
Vamos explicar o que caracteriza um material como certificado, quais são suas aplicações nas mais diversas áreas da ciência e da indústria, e por que ele é um elemento-chave para a qualidade analítica.
O que é Certified Reference Material (CRM)?
Certified Reference Material (CRM) é uma substância ou preparação cuidadosamente caracterizada, com propriedades bem definidas, cuja composição foi determinada com alto grau de exatidão por meio de métodos analíticos reconhecidos internacionalmente.
O uso de materiais de referência certificados (Certified Reference Materials – CRMs) é fundamental para garantir a confiabilidade, rastreabilidade e comparabilidade dos resultados analíticos, especialmente em laboratórios envolvidos com o controle de qualidade de medicamentos e alimentos.
O diferencial dos CRMs está na emissão de um certificado técnico, elaborado por uma organização competente, que documenta os valores atribuídos às propriedades mensuráveis do material, suas respectivas incertezas e a rastreabilidade metrológica a padrões internacionais, como os do Sistema Internacional de Unidades (SI).
A aplicação de CRMs em laboratórios de controle de qualidade tem múltiplas finalidades, entre as quais se destacam: a calibração de instrumentos analíticos, a validação de métodos, a verificação do desempenho contínuo das análises, o controle interno da qualidade e a participação em ensaios de proficiência.
Em metodologias quantitativas, como aquelas utilizadas para a determinação da concentração de princípios ativos, contaminantes ou nutrientes, os CRMs são indispensáveis para o preparo de curvas de calibração confiáveis, que fornecem a base para resultados robustos.
Já em metodologias qualitativas, eles servem como padrões de comparação para confirmar a identidade de substâncias em amostras complexas, como extratos alimentares ou formulações farmacêuticas.
Exigência por Certified Reference Materials (CRMs)
No contexto regulatório, especialmente na indústria farmacêutica, o uso de CRMs é exigido por agências como a ANVISA (Brasil), FDA (Estados Unidos) e EMA (Europa), como parte da comprovação da qualidade e da integridade dos resultados analíticos apresentados em processos de registro de medicamentos.
Um exemplo prático é a análise de impurezas orgânicas em medicamentos. Para quantificá-las adequadamente, é comum o uso de CRMs da substância ativa principal e também das impurezas conhecidas, garantindo que as medições estejam em conformidade com os critérios de especificação estabelecidos em farmacopeias ou guias regulatórios.
Um CRM de dipirona sódica, por exemplo, pode ser utilizado para construir uma curva analítica rastreável e assegurar que os resultados sejam tecnicamente válidos e reprodutíveis, inclusive em auditorias.
No setor de alimentos
No setor de alimentos, os CRMs também desempenham um papel essencial. São amplamente utilizados na determinação de elementos traço (como chumbo, arsênio e cádmio), na análise de resíduos de pesticidas, na quantificação de vitaminas e nutrientes e na verificação da autenticidade de ingredientes.
Por exemplo, um CRM de farinha de trigo com teor certificado de proteína pode ser usado para validar métodos de quantificação desse nutriente, contribuindo para o cumprimento das exigências de rotulagem nutricional. Além disso, em produtos altamente sujeitos a fraudes econômicas, como azeites, mel e suplementos alimentares, os CRMs auxiliam na detecção de adulterações por meio da comparação de perfis analíticos bem estabelecidos.
Quem produz CRMs?
A produção de CRMs é realizada por institutos metrológicos nacionais e internacionais altamente especializados, como o NIST (National Institute of Standards and Technology, nos Estados Unidos), o BAM (Bundesanstalt für Materialforschung und -prüfung, na Alemanha) e o Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia, no Brasil).
Esses institutos seguem protocolos rigorosos de homogeneidade, estabilidade e caracterização do material. Antes de ser certificado, o material é submetido a uma extensa bateria de testes para assegurar que ele seja representativo, estável ao longo do tempo e homogêneo entre diferentes lotes ou frascos.
A estabilidade sob condições normais de armazenamento é um dos principais requisitos, pois influencia diretamente a validade e a confiança no uso do material. É importante ressaltar que nem todo material de referência é um CRM. Um material de referência (RM) pode ser utilizado para controle de qualidade, mas não necessariamente possui os atributos completos de certificação formal, como a rastreabilidade metrológica e a quantificação da incerteza com base estatística.
A escolha entre um RM comum e um CRM depende do objetivo analítico. Para ensaios regulatórios, validações críticas ou estudos de estabilidade que demandam alto grau de precisão e confiabilidade, o uso de CRMs é imprescindível.
As aplicações dos CRMs
Os CRMs são aplicados em diferentes etapas do processo analítico. Na calibração de equipamentos como HPLC, GC, espectrofotômetros UV-Vis, espectrômetros de absorção atômica e espectrômetros de massas, asseguram que as medições estejam corretas, rastreadas e tecnicamente defensáveis.
Durante a validação de métodos, permitem a avaliação de parâmetros fundamentais, como linearidade, exatidão, precisão, especificidade, limite de detecção (LOD) e limite de quantificação (LOQ).
Já na rotina analítica, atuam como controles internos de qualidade, possibilitando o monitoramento do desempenho do sistema ao longo do tempo e a detecção precoce de desvios ou falhas operacionais.
Outra aplicação relevante dos CRMs está nos ensaios de proficiência e comparações interlaboratoriais, nos quais vários laboratórios analisam o mesmo material de referência para verificar se os resultados estão dentro de uma faixa aceitável de variação. Essa prática fortalece a harmonização de resultados entre diferentes laboratórios e aumenta a confiança dos dados analíticos perante órgãos reguladores, clientes e sociedade.
Os materiais de referência certificados são componentes essenciais da infraestrutura analítica moderna. Seu uso promove a integridade dos dados, a conformidade com as normas vigentes e a proteção da saúde pública, seja ao garantir a eficácia e segurança de medicamentos, seja ao assegurar a qualidade e autenticidade dos alimentos consumidos pela população. Incorporar CRMs às rotinas de laboratório não é apenas uma exigência normativa, mas uma prática de excelência científica e compromisso com a qualidade.


